Valorização da pedagogia Adaptada no Portugal Oitocentista: o Ensino para Alunos Cegos no Asilo-escola António Feliciano de Castilho (1888)

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Abstract

Durante a segunda metade do século XIX, Portugal sofreu diversas modificações do ponto de vista político. O crescimento do movimento Republicano, a progressiva laicização do Estado e a alternância de poderes no Parlamento, se por um lado criaram alguma instabilidade no país, por outro lado permitiram que se fossem abrindo novas perspetivas de gestão nacional em áreas tão importantes como a educação. Um ano antes da subida de D. Carlos (1863-1908) ao trono, é fundada em Portugal a primeira escola para alunos cegos: o Asilo-escola António Feliciano de Castilho (1888).
Até então, os cidadãos cegos eram assistidos em casa, quando originários de famílias abastadas, ou recolhidos em asilos, quando em situações financeiramente insustentáveis. Nessas instituições recebiam alguma educação e, na sua maior parte, formação profissional que era exercida na própria instituição. Não havia escolas para alunos cegos, no sentido da forma escolar fundada pela modernidade ocidental. Estabelecerei assim uma análise de conteúdo sobre quatro relatórios anuais desta nova escola e o seu regulamento, assim como sobre reportagens publicadas nos jornais da época por forma a questionar a influência que recebeu desse gesto de mudança republicano e laico. Em paralelo, usarei uma metodologia de análise comparativa entre esta primeira escola portuguesa e as escolas que lhe transmitiram a maior parte dos conteúdos pedagógicos e materiais, como a escola de Paris, o Institut National des Jeunes Aveugles (1785), estabilizando o projecto e criando condições para o seu sucesso.
Seguindo uma arqueologia do gesto inclusivo, procurarei saber se estas condições criadas na escola de Lisboa foram bem sucedidas, ou seja, se os alunos, com a formação que lhes foi dada nos anos de internato, conseguiram fundamentos académicos e sustentação social para uma vida autónoma e uma cidadania respeitada.
Concluo com a observação que o Asilo-escola António Feliciano de Castilho teve um relevante papel experimental para a fundação da educação adaptada em Portugal, não tendo porém conseguido os seus intentos de uma forma tão lata como seria o seu objectivo: alguns dos seus alunos e alunas conseguiram, após o período de internato, obter os seus diplomas de estudos ou as suas especializações em áreas como a música, por exemplo, mas nem todo tiveram um percurso de vida profissional autónomo. Os dados existentes revelam assim que esta escola contribuiu mais para a potência da educação e a sensibilização social em torno da necessária autonomia dos cidadãos cegos que propriamente para a efectivação desse gesto de dar autonomia. Seria necessária a chegada do século XX e a fundação de novas escolas e institutos concorrentes para que os primeiros alunos cegos portugueses chegassem à universidade e a carreiras profissionais mais diversas, completando a integração académica e profissional pretendida desde a sua fundação.
Original languagePortuguese
Title of host publicationRevolução, Modernidade e Memória. Caminhos da História da Educação
Subtitle of host publicationActas XIV CIHELA Congresso Iberoamericano de História da Educação
EditorsJoaquim Pintassilgo, Ana Maria Pessoa, Carla Vilhena, Carlos Manique da Silva, José Brás, José Eduardo Franco, Luís Alberto Alves, Maria João Mogarro, Nuno Martins Ferreira, Raquel Pereira Henriques
Place of PublicationLisboa
Publisher Associação de História da Educação de Portugal – HISTEDUP
Pages3861-3876
Number of pages16
ISBN (Print)978-989-54039-1-2
Publication statusPublished - 2021
EventXIV CIHELA Congresso Iberoamericano de História da Educação -
Duration: 20 Jul 202123 Jul 2021

Conference

ConferenceXIV CIHELA Congresso Iberoamericano de História da Educação
Period20/07/2123/07/21

Keywords

  • História da Educação
  • Educação Adaptada
  • Cegueira

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