Quem está no convento é que sabe o que vai lá dentro: vivências, comportamentos e transgressões na clausura feminina (a partir de um caso açoriano)

Research output: Contribution to conferenceAbstract

Abstract

O estudo dos mosteiros femininos e da clausura na Época Moderna é uma área já bem explorada, com abordagens que vão desde os mecanismos sociais de entrada para as comunidades monásticas até à análise dos elementos arquitectónicos e artísticos que surgiram nestes espaços. Um dos aspectos porventura mais interessantes, e por regra difícil de abordar por escassez de fontes, é o das vivências no interior das comunidades. Como decorria o quotidiano? Que espaços internos existiam no convento? Como se relacionavam as freiras entre si? E com o exterior? Que comportamentos tinham? E que transgressões ocorriam? Sabendo à partida que a maioria das ocupantes dos conventos não estava lá por vocação, mas sim por obrigação (muitas delas mesmo a contragosto), não é difícil imaginar que fossem frequentes as atitudes menos “decentes” ou as tentativas de fugir ao rigor vivencial imposto pela clausura. Mas conseguimos identificar esses comportamentos?
Numa investigação em curso sobre o Mosteiro da Glória (Açores) conseguimos ter um vislumbre das vivências no interior do convento, desde a alimentação às práticas musicais, passando pelos exercícios de oração, as práticas comunitárias e as formas de relacionamento com o exterior. “He proprio emprego das que buscão a Religião honrar, venerar, e louvar a Deos”, afirma um prelado em visita ao convento, em 1675, anotando que é necessário que as religiosas observem as regras da clausura, “para que na Religião se ache aquella paz, união, e irmandade, que todos buscão, quando a ella vem, e devem conservar em quanto nella vivem, para que este Mosteiro floreça em augmentos de virtude”. No entanto, afirma também, por exemplo, que “he cousa muito digna de se estranhar, e abominar o quererem as Religiosas usar das vaidades, ou loucuras seculares, [...]; não advertindo, que andão já em vida amortalhadas em o seu habito, e que renunciárão com a vinda á Religião tudo o que no mundo barbara, e loucamente se usa”; que “he couza muito para estranhar, que castigando-se os seculares, que trabalhão, ou fazem trabalhar em semelhantes dias [Domingos e feriados], na Religião, aonde tudo havia de ser concerto, e obediencia aos preceitos Divinos, se achem semelhantes absurdos”; ou que “he muito indecente, que, sendo a grade da Igreja só para se vêr ao Senhor, ou se receber na Communhão, se abuse della de maneira, que sirva de Parlatorio; e sendo só lugar de Oração, e de colloquios com Deos, o seja tambem de conversação com as creaturas, e com tanta relaxação nesta materia, que nos escandaliza muito”. Por estas passagens conseguimos perceber que a vivência clausural nem sempre ‘florescia em aumentos de virtude’, antes eram comuns atitudes “de estranhar” ou mesmo “indecentes” ou “escandalizantes”. Com esta comunicação pretendemos observar o quotidiano conventual e analisar as práticas e comportamentos desviantes que ocorriam no interior da clausura.
Original languagePortuguese
Pages96-97
Number of pages2
Publication statusPublished - 7 Jun 2019
EventVI Encontro de Jovens Investigadores em História Moderna - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Portugal
Duration: 5 Jun 20197 Jun 2019
https://viejihm2019.wordpress.com/

Conference

ConferenceVI Encontro de Jovens Investigadores em História Moderna
CountryPortugal
CityLisboa
Period5/06/197/06/19
Internet address

Keywords

  • Society of Jesus
  • Jesuits
  • Evangelization
  • Japan

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