O Amor como tema humanista: de Leão de Hebreu a Francisco de Holanda

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Abstract

A teoria do Amor é o aspecto do pensamento de Leão de Hebreu ao qual os seus contemporâneos mais estiveram sensíveis e pode dizer-se que foi através do Dialoghi d'amore que este autor atingiu uma popularidade pouco comum para um português em pleno Renascimento. O conceito de Amor encontrará neste autor uma narrativa fértil que deixará rasto em vários artistas, humanistas e filósofos, nomeadamente em Francisco de Holanda, quer tenha sido pelo contacto directo com a obra na sua estadia em Roma, quer tenha tido indirectamente por via de ser um tema de forte herança petrarquista tão caro ao Renascimento. Os Dialoghi de Hebreu, escritos em 1502, tiveram a primeira edição póstuma em 1535, na cidade eterna, a mesma que 4 anos depois acolhia Francisco de Holanda e seria palco dos seus, também, diálogos. Hebreu apresenta uma visão universal do amor, onde expõe as grandes linhas do seu pensamento, nos planos da cosmologia, teologia, metafísica, antropologia e estética. Nesta obra o filósofo pretende mostrar a sua doutrina afirmando que o amor é uma fundamentação ontológica da realidade, idealizado como sentimento e intelecto. Hebreu e Holanda têm pontos em comum muito curiosos: ambos reflectem acerca do protagonismo de um Deus Artifex: “Esta criação que não se faz depender do tempo, é feita à imagem da criação artística que possui no espírito o modelo do que irá produzir.”( Leão Hebreu, Diálogos do Amor, Texto fixado, anotado e traduzido por Giacinto Manuppella, vol. II, Lisboa. Instituto Nacional de Investigação Científica, 1983, p. 292). Aquele a que Hebreu chama o sumo Artífice ou Arquitecto do mundo, o Deus Pintor, nas palavras de Holanda vê-se espelhado na força criadora do artista, também ela expressão do amor divino.
Se nada há no mundo sensível que escape ao amor, para Hebreu a contemplação é fundamental para que haja união entre o amante e a coisa amada. Esta requer recolhimento e pode dar-se por via do êxtase em que há um abandono do corpo (ex. Fedro de Platão), aspecto ao qual Holanda dá especial ênfase recuperando mesmo a expressão Divino Furor, como expressão máxima da ideia interior do artista através do esquisso. O amor à arte é também um tema que perpassa o Renascimento, e que se manifesta num tipo de dedicação que se por um lado é voluntária exigindo esforço e sacrifício, por outro é também uma força irresistível e involuntária como a do amor. Tanto em Hebreu como em Holanda, há uma valorização da visão como o sentido mais nobre, ao mesmo tempo que há um recuperar da expressão agostiniana “olhos interiores”. O belo pode apenas ser captado pelo sentido da visão: as belas formas, as belas cores consequentes da luz, mas a suprema beleza é espiritual e não está ligada à matéria. Na arte do Renascimento surgem ecos deste tema, nomeadamente o contraponto entre o Amor Profano e o Amor Sagrado, divulgado tanto por Ficino (De Amore, 1484) como mais tarde por Hebreu (1534), que obtém uma fecunda representação artística. Os dois exemplos que se seguem são flagrantes: a Primavera de Botticielli e o Amor Sacro e Amor Profano de Tiziano (Roma, 1514). Por fim. veremos como também Francisco de Holanda incorpora este tema através do emblemático díptico Afrodite e Eros e Anjo do Senhor. Estes desenhos que se podem datar entre 1545 e 1547, surgem no final do De Aetatibus Mundi Imagines. Holanda representa os deuses da Antiguidade, símbolos da sensualidade, como frágeis e descarnados corpos exibindo a sua materialidade e finitude, como símbolo do devir e do amor sensual, por oposição ao esplendor e à beleza luminosa do Anjo do Senhor, uma beleza eterna e universal.
Original languagePortuguese
Pages45-47
Number of pages2
Publication statusPublished - 2018
EventCongresso Internacional «Francisco de Holanda (c. 1518-1584): arte e teoria do Renascimento europeu» - Fundação Calouste Gulbenkian, Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa, Portugal
Duration: 22 Nov 201824 Nov 2018
https://congressofranciscodeholanda.wordpress.com/

Conference

ConferenceCongresso Internacional «Francisco de Holanda (c. 1518-1584): arte e teoria do Renascimento europeu»
CountryPortugal
CityLisboa
Period22/11/1824/11/18
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