Música antiga e património português: a estreia moderna da ópera La Spinalba, de Francisco António de Almeida, no Festival Gulbenkian de 1965

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Abstract

Os Festivais Gulbenkian de Música (1957-1970) assumiram um papel crucial na vida musical portuguesa não só pela apresentação de intérpretes de primeiro plano internacional, mas também pela divulgação de repertórios em primeira audição em Portugal, incluindo várias obras de música antiga, em especial dos principais vultos do barroco, e de alguns compositores portugueses. Foi neste contexto que, em 1965, teve lugar no 9º Festival Gulbenkian a estreia moderna da ópera La Spinalba (1739), de Francisco António de Almeida (1703-1754), uma iniciativa em estreita ligação com as edições do património musical português dos séculos XVI a XVIII da colecção Portugaliae Musica. Até àquela data, apenas três óperas setecentistas portuguesas tinham sido levadas à cena no século XX — O Amor Industrioso, de Sousa Carvalho (1943); Ouro não Compra Amor, de Marcos Portugal (1953); e A Vingança da Cigana, de Leal Moreira (1964) — todas elas mais tardias do que La Spinalba. A apresentação desta última no Teatro Nacional de São Carlos constituiu assim um marco numa época em que vários ecos do movimento de revivificação da música antiga, com crescente consolidação a nível europeu, iam chegando a Portugal. Nesta comunicação pretende-se analisar o papel da imprensa na promoção, divulgação e recepção de uma obra resgatada do passado, apresentada ao mesmo tempo como novidade e como peça fundamental da história da música em Portugal — i.e. como demonstração de que também os compositores lusos tinham concebido páginas capazes de ombrear com as grandes criações do barroco e de integrar as programações musicais do presente. Até que ponto os diferentes discursos em torno da estreia moderna contribuíram para que La Spinalba fosse gravada poucos anos depois e para que, até hoje, continue a ser revisitada de tempos a tempos, sendo mesmo a única ópera portuguesa a contar com dois registos discográficos (Orq. Gulbenkian, Philips, 1969; Os Músicos do Tejo, Naxos, 2012), constitui uma das questões basilares. Serão igualmente tidos em conta aspectos como a dimensão pedagógica de alguns artigos e materiais de divulgação publicados, as vertentes musicológica e patrimonial, práticas e tradições interpretativas, bem como a permeabilidade a discursos aplicados ao repertório operático concebido para contextos distintos dos de uma ópera cómica de corte.

Conference

ConferenceIII Jornadas NEMI / 9º MUSPRES
Country/TerritoryPortugal
CityLisboa
Period26/05/1428/05/21
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