Mauricio Kagel na Sala Cecília Meireles em 1974:

a recepção da música-teatro europeia no Rio de Janeiro a partir das críticas de Ronaldo Miranda e Carlos Dantas

Research output: Contribution to conferenceAbstract

Abstract

Em 1974, Mauricio Kagel (1931-2008) esteve no Rio de Janeiro com seu ensemble para duas apresentações na Sala Cecília Meireles. Kagel, compositor argentino radicado na Alemanha desde 1957, já era naquele momento reconhecido como uma importante figura no campo da música contemporânea europeia, sobretudo por seu inovador repertório de música-teatro (ou teatro instrumental, como preferia chamar).
Música-teatro é um gênero surgido no início dos anos 60 que consiste, em linhas gerais, na criação cênica ou cênico-musical a partir de técnicas composicionais musicais. Nesta prática, os elementos da linguagem teatral (tais como movimentação, iluminação, cenografia, etc.), são tratados como materiais passíveis de serem manipulados composicionalmente, da mesma maneira que os sons. Mauricio Kagel é frequentemente reconhecido como o pai deste gênero, não apenas por ter sido um dos primeiros a definir suas formas, mas também por seu amplo e variado conjunto de obras.
Este trabalho busca lançar luz à recepção da música-teatro no Brasil, quando da passagem de um de seus mais importantes representantes pelo país. Para tanto, analisaremos três críticas publicadas em jornais cariocas, duas delas do compositor Ronaldo Miranda. A primeira, escrita antes do concerto, apresenta comentários superficiais sobre as obras, provavelmente extraídos de algum material de divulgação. Nela, Miranda demonstra certa expectativa, exaltando que o público carioca viveria experiências incomuns. Na segunda crítica, intitulada “Kagel: conceitos sem música”, Miranda aparece decepcionado, fazendo apontamentos severos sobre as obras e a personalidade de Kagel enquanto compositor. Em sua concepção, a obra do argentino estaria mais relacionada à arte conceitual, em que predomina a ideia sobre o resultado. Quanto a isso, Miranda é assertivo: “No nosso entender, Kagel seria mais coerente com sua arte se abolisse a palavra ‘música’ do rótulo de suas apresentações” (MIRANDA, 1974).
A outra crítica encontrada é de autoria de Paulo Dantas. Feroz, o autor começa apontando que o destino das vanguardas é a comunicação apenas entre iniciados, indicando esta como uma forma de distinção de castas. Compara as obras de Kagel com o Dadaísmo, utilizando adjetivos como “elitista” e “intelectualizado” de modo negativo para reforçar sua crítica, para, por fim, afirmar que foi uma apresentação entediante.
Estas críticas demonstram uma aversão à música experimental. O fato das obras
apresentadas não trabalharem majoritariamente com melodias, mas sim com ruídos e explorações sonoras diversas, pode ter sido um fator para sua rejeição. Contudo, certamente foi o caráter cênico pós-dramático e de comunicação não-imediata, beirando o grotesco, que provocaram tal reação agressiva, sobretudo em Paulo Dantas.
Há que se ressaltar que a recepção mais enviesada é uma constante no campo da músicateatro, não somente no Brasil. Para nós que investigamos a história da música-teatro brasileira, é de fundamental importância compreender como se deu a recepção de sua expressão europeia aqui, a fim de que possamos traçar paralelos e, com isso, identificar os caminhos que o gênero percorreu no cenário brasileiro.
Original languagePortuguese
Pages13-14
Number of pages2
Publication statusPublished - 2018
EventV Encontro Nacional de Pesquisadores em Filosofia da Música. Congresso Internacional "Intercâmbios Norte-Sul: Colaborações, Tensões, Hibridações - UNESP, São Paulo, Brazil
Duration: 19 Sep 201821 Sep 2018

Conference

ConferenceV Encontro Nacional de Pesquisadores em Filosofia da Música. Congresso Internacional "Intercâmbios Norte-Sul: Colaborações, Tensões, Hibridações
CountryBrazil
CitySão Paulo
Period19/09/1821/09/18

Keywords

  • Mauric Kagel
  • Recepção
  • Música-teatro
  • Rio de Janeiro

Cite this

Magre, F. D. O. (2018). Mauricio Kagel na Sala Cecília Meireles em 1974: a recepção da música-teatro europeia no Rio de Janeiro a partir das críticas de Ronaldo Miranda e Carlos Dantas. 13-14. Abstract from V Encontro Nacional de Pesquisadores em Filosofia da Música. Congresso Internacional "Intercâmbios Norte-Sul: Colaborações, Tensões, Hibridações, São Paulo, Brazil.
Magre, Fernando de Oliveira. / Mauricio Kagel na Sala Cecília Meireles em 1974: a recepção da música-teatro europeia no Rio de Janeiro a partir das críticas de Ronaldo Miranda e Carlos Dantas. Abstract from V Encontro Nacional de Pesquisadores em Filosofia da Música. Congresso Internacional "Intercâmbios Norte-Sul: Colaborações, Tensões, Hibridações, São Paulo, Brazil.2 p.
@conference{b85e4148b4fd4cd3a9493dd19215d281,
title = "Mauricio Kagel na Sala Cec{\'i}lia Meireles em 1974:: a recep{\cc}{\~a}o da m{\'u}sica-teatro europeia no Rio de Janeiro a partir das cr{\'i}ticas de Ronaldo Miranda e Carlos Dantas",
abstract = "Em 1974, Mauricio Kagel (1931-2008) esteve no Rio de Janeiro com seu ensemble para duas apresenta{\cc}{\~o}es na Sala Cec{\'i}lia Meireles. Kagel, compositor argentino radicado na Alemanha desde 1957, j{\'a} era naquele momento reconhecido como uma importante figura no campo da m{\'u}sica contempor{\^a}nea europeia, sobretudo por seu inovador repert{\'o}rio de m{\'u}sica-teatro (ou teatro instrumental, como preferia chamar).M{\'u}sica-teatro {\'e} um g{\^e}nero surgido no in{\'i}cio dos anos 60 que consiste, em linhas gerais, na cria{\cc}{\~a}o c{\^e}nica ou c{\^e}nico-musical a partir de t{\'e}cnicas composicionais musicais. Nesta pr{\'a}tica, os elementos da linguagem teatral (tais como movimenta{\cc}{\~a}o, ilumina{\cc}{\~a}o, cenografia, etc.), s{\~a}o tratados como materiais pass{\'i}veis de serem manipulados composicionalmente, da mesma maneira que os sons. Mauricio Kagel {\'e} frequentemente reconhecido como o pai deste g{\^e}nero, n{\~a}o apenas por ter sido um dos primeiros a definir suas formas, mas tamb{\'e}m por seu amplo e variado conjunto de obras.Este trabalho busca lan{\cc}ar luz {\`a} recep{\cc}{\~a}o da m{\'u}sica-teatro no Brasil, quando da passagem de um de seus mais importantes representantes pelo pa{\'i}s. Para tanto, analisaremos tr{\^e}s cr{\'i}ticas publicadas em jornais cariocas, duas delas do compositor Ronaldo Miranda. A primeira, escrita antes do concerto, apresenta coment{\'a}rios superficiais sobre as obras, provavelmente extra{\'i}dos de algum material de divulga{\cc}{\~a}o. Nela, Miranda demonstra certa expectativa, exaltando que o p{\'u}blico carioca viveria experi{\^e}ncias incomuns. Na segunda cr{\'i}tica, intitulada “Kagel: conceitos sem m{\'u}sica”, Miranda aparece decepcionado, fazendo apontamentos severos sobre as obras e a personalidade de Kagel enquanto compositor. Em sua concep{\cc}{\~a}o, a obra do argentino estaria mais relacionada {\`a} arte conceitual, em que predomina a ideia sobre o resultado. Quanto a isso, Miranda {\'e} assertivo: “No nosso entender, Kagel seria mais coerente com sua arte se abolisse a palavra ‘m{\'u}sica’ do r{\'o}tulo de suas apresenta{\cc}{\~o}es” (MIRANDA, 1974).A outra cr{\'i}tica encontrada {\'e} de autoria de Paulo Dantas. Feroz, o autor come{\cc}a apontando que o destino das vanguardas {\'e} a comunica{\cc}{\~a}o apenas entre iniciados, indicando esta como uma forma de distin{\cc}{\~a}o de castas. Compara as obras de Kagel com o Dada{\'i}smo, utilizando adjetivos como “elitista” e “intelectualizado” de modo negativo para refor{\cc}ar sua cr{\'i}tica, para, por fim, afirmar que foi uma apresenta{\cc}{\~a}o entediante.Estas cr{\'i}ticas demonstram uma avers{\~a}o {\`a} m{\'u}sica experimental. O fato das obrasapresentadas n{\~a}o trabalharem majoritariamente com melodias, mas sim com ru{\'i}dos e explora{\cc}{\~o}es sonoras diversas, pode ter sido um fator para sua rejei{\cc}{\~a}o. Contudo, certamente foi o car{\'a}ter c{\^e}nico p{\'o}s-dram{\'a}tico e de comunica{\cc}{\~a}o n{\~a}o-imediata, beirando o grotesco, que provocaram tal rea{\cc}{\~a}o agressiva, sobretudo em Paulo Dantas.H{\'a} que se ressaltar que a recep{\cc}{\~a}o mais enviesada {\'e} uma constante no campo da m{\'u}sicateatro, n{\~a}o somente no Brasil. Para n{\'o}s que investigamos a hist{\'o}ria da m{\'u}sica-teatro brasileira, {\'e} de fundamental import{\^a}ncia compreender como se deu a recep{\cc}{\~a}o de sua express{\~a}o europeia aqui, a fim de que possamos tra{\cc}ar paralelos e, com isso, identificar os caminhos que o g{\^e}nero percorreu no cen{\'a}rio brasileiro.",
keywords = "Mauric Kagel, Recep{\cc}{\~a}o, M{\'u}sica-teatro, Rio de Janeiro",
author = "Magre, {Fernando de Oliveira}",
note = "info:eu-repo/grantAgreement/FCT/5876/147237/PT# UID/EAT/00693/2013; null ; Conference date: 19-09-2018 Through 21-09-2018",
year = "2018",
language = "Portuguese",
pages = "13--14",

}

Magre, FDO 2018, 'Mauricio Kagel na Sala Cecília Meireles em 1974: a recepção da música-teatro europeia no Rio de Janeiro a partir das críticas de Ronaldo Miranda e Carlos Dantas' V Encontro Nacional de Pesquisadores em Filosofia da Música. Congresso Internacional "Intercâmbios Norte-Sul: Colaborações, Tensões, Hibridações, São Paulo, Brazil, 19/09/18 - 21/09/18, pp. 13-14.

Mauricio Kagel na Sala Cecília Meireles em 1974: a recepção da música-teatro europeia no Rio de Janeiro a partir das críticas de Ronaldo Miranda e Carlos Dantas. / Magre, Fernando de Oliveira.

2018. 13-14 Abstract from V Encontro Nacional de Pesquisadores em Filosofia da Música. Congresso Internacional "Intercâmbios Norte-Sul: Colaborações, Tensões, Hibridações, São Paulo, Brazil.

Research output: Contribution to conferenceAbstract

TY - CONF

T1 - Mauricio Kagel na Sala Cecília Meireles em 1974:

T2 - a recepção da música-teatro europeia no Rio de Janeiro a partir das críticas de Ronaldo Miranda e Carlos Dantas

AU - Magre, Fernando de Oliveira

N1 - info:eu-repo/grantAgreement/FCT/5876/147237/PT# UID/EAT/00693/2013

PY - 2018

Y1 - 2018

N2 - Em 1974, Mauricio Kagel (1931-2008) esteve no Rio de Janeiro com seu ensemble para duas apresentações na Sala Cecília Meireles. Kagel, compositor argentino radicado na Alemanha desde 1957, já era naquele momento reconhecido como uma importante figura no campo da música contemporânea europeia, sobretudo por seu inovador repertório de música-teatro (ou teatro instrumental, como preferia chamar).Música-teatro é um gênero surgido no início dos anos 60 que consiste, em linhas gerais, na criação cênica ou cênico-musical a partir de técnicas composicionais musicais. Nesta prática, os elementos da linguagem teatral (tais como movimentação, iluminação, cenografia, etc.), são tratados como materiais passíveis de serem manipulados composicionalmente, da mesma maneira que os sons. Mauricio Kagel é frequentemente reconhecido como o pai deste gênero, não apenas por ter sido um dos primeiros a definir suas formas, mas também por seu amplo e variado conjunto de obras.Este trabalho busca lançar luz à recepção da música-teatro no Brasil, quando da passagem de um de seus mais importantes representantes pelo país. Para tanto, analisaremos três críticas publicadas em jornais cariocas, duas delas do compositor Ronaldo Miranda. A primeira, escrita antes do concerto, apresenta comentários superficiais sobre as obras, provavelmente extraídos de algum material de divulgação. Nela, Miranda demonstra certa expectativa, exaltando que o público carioca viveria experiências incomuns. Na segunda crítica, intitulada “Kagel: conceitos sem música”, Miranda aparece decepcionado, fazendo apontamentos severos sobre as obras e a personalidade de Kagel enquanto compositor. Em sua concepção, a obra do argentino estaria mais relacionada à arte conceitual, em que predomina a ideia sobre o resultado. Quanto a isso, Miranda é assertivo: “No nosso entender, Kagel seria mais coerente com sua arte se abolisse a palavra ‘música’ do rótulo de suas apresentações” (MIRANDA, 1974).A outra crítica encontrada é de autoria de Paulo Dantas. Feroz, o autor começa apontando que o destino das vanguardas é a comunicação apenas entre iniciados, indicando esta como uma forma de distinção de castas. Compara as obras de Kagel com o Dadaísmo, utilizando adjetivos como “elitista” e “intelectualizado” de modo negativo para reforçar sua crítica, para, por fim, afirmar que foi uma apresentação entediante.Estas críticas demonstram uma aversão à música experimental. O fato das obrasapresentadas não trabalharem majoritariamente com melodias, mas sim com ruídos e explorações sonoras diversas, pode ter sido um fator para sua rejeição. Contudo, certamente foi o caráter cênico pós-dramático e de comunicação não-imediata, beirando o grotesco, que provocaram tal reação agressiva, sobretudo em Paulo Dantas.Há que se ressaltar que a recepção mais enviesada é uma constante no campo da músicateatro, não somente no Brasil. Para nós que investigamos a história da música-teatro brasileira, é de fundamental importância compreender como se deu a recepção de sua expressão europeia aqui, a fim de que possamos traçar paralelos e, com isso, identificar os caminhos que o gênero percorreu no cenário brasileiro.

AB - Em 1974, Mauricio Kagel (1931-2008) esteve no Rio de Janeiro com seu ensemble para duas apresentações na Sala Cecília Meireles. Kagel, compositor argentino radicado na Alemanha desde 1957, já era naquele momento reconhecido como uma importante figura no campo da música contemporânea europeia, sobretudo por seu inovador repertório de música-teatro (ou teatro instrumental, como preferia chamar).Música-teatro é um gênero surgido no início dos anos 60 que consiste, em linhas gerais, na criação cênica ou cênico-musical a partir de técnicas composicionais musicais. Nesta prática, os elementos da linguagem teatral (tais como movimentação, iluminação, cenografia, etc.), são tratados como materiais passíveis de serem manipulados composicionalmente, da mesma maneira que os sons. Mauricio Kagel é frequentemente reconhecido como o pai deste gênero, não apenas por ter sido um dos primeiros a definir suas formas, mas também por seu amplo e variado conjunto de obras.Este trabalho busca lançar luz à recepção da música-teatro no Brasil, quando da passagem de um de seus mais importantes representantes pelo país. Para tanto, analisaremos três críticas publicadas em jornais cariocas, duas delas do compositor Ronaldo Miranda. A primeira, escrita antes do concerto, apresenta comentários superficiais sobre as obras, provavelmente extraídos de algum material de divulgação. Nela, Miranda demonstra certa expectativa, exaltando que o público carioca viveria experiências incomuns. Na segunda crítica, intitulada “Kagel: conceitos sem música”, Miranda aparece decepcionado, fazendo apontamentos severos sobre as obras e a personalidade de Kagel enquanto compositor. Em sua concepção, a obra do argentino estaria mais relacionada à arte conceitual, em que predomina a ideia sobre o resultado. Quanto a isso, Miranda é assertivo: “No nosso entender, Kagel seria mais coerente com sua arte se abolisse a palavra ‘música’ do rótulo de suas apresentações” (MIRANDA, 1974).A outra crítica encontrada é de autoria de Paulo Dantas. Feroz, o autor começa apontando que o destino das vanguardas é a comunicação apenas entre iniciados, indicando esta como uma forma de distinção de castas. Compara as obras de Kagel com o Dadaísmo, utilizando adjetivos como “elitista” e “intelectualizado” de modo negativo para reforçar sua crítica, para, por fim, afirmar que foi uma apresentação entediante.Estas críticas demonstram uma aversão à música experimental. O fato das obrasapresentadas não trabalharem majoritariamente com melodias, mas sim com ruídos e explorações sonoras diversas, pode ter sido um fator para sua rejeição. Contudo, certamente foi o caráter cênico pós-dramático e de comunicação não-imediata, beirando o grotesco, que provocaram tal reação agressiva, sobretudo em Paulo Dantas.Há que se ressaltar que a recepção mais enviesada é uma constante no campo da músicateatro, não somente no Brasil. Para nós que investigamos a história da música-teatro brasileira, é de fundamental importância compreender como se deu a recepção de sua expressão europeia aqui, a fim de que possamos traçar paralelos e, com isso, identificar os caminhos que o gênero percorreu no cenário brasileiro.

KW - Mauric Kagel

KW - Recepção

KW - Música-teatro

KW - Rio de Janeiro

M3 - Abstract

SP - 13

EP - 14

ER -

Magre FDO. Mauricio Kagel na Sala Cecília Meireles em 1974: a recepção da música-teatro europeia no Rio de Janeiro a partir das críticas de Ronaldo Miranda e Carlos Dantas. 2018. Abstract from V Encontro Nacional de Pesquisadores em Filosofia da Música. Congresso Internacional "Intercâmbios Norte-Sul: Colaborações, Tensões, Hibridações, São Paulo, Brazil.