Concerning the Unfinished and the Infinite: the Promethean Hypothesis in the work of Fernando Pessoa

Research output: Chapter in Book/Report/Conference proceedingConference contribution

Abstract

Perante a poesia, e mais especificamente em relação à linguagem poética de Fernando Pessoa, o leitor atento emudece-se, súbito órfão das suas certezas. E, contudo, essa mesma poesia interpela-nos de modo insistente. Só que o acto de compreender, que a poesia nos exige, ocorre numa espécie de voz-off: nunca coincidimos inteira e integralmente com a palavra materializada. Daí, a poesia pertencer a um fenómeno de intimidade: simultaneamente intensa e diferida, extática e desgarrada. Na verdade, o acto de ler poesia exige-nos o jejum dos afamados, o sacrifício dos desarmados, um silêncio maior que o hiato fónico dos emudecidos. É a partir de uma tal tomada de consciência por parte do leitor que a poesia se poderá mais audível e inteligivelmente elevar no horizonte do dizer. Perante a poesia, incumbe a todo o animal falante fixar-se primeiramente neste silêncio. Só assim o evento poético se poderá percepcionar – na consciência de quem nele, ora lê, ora se lê, – como estrutura enunciativa e expressão privilegiada do ser, i.e., em articulada veemência ontológica. Só face a esta luminosa tirania – que a linguagem poética representa para o leitor – é que as nossas capacidades cognitivas se poderão mobilizar devidamente a fim de iluminar essa opacidade comunicativa de que a poesia é primordialmente a consubstanciação. Então, nesse instante, a materialidade gráfica que se espraia na folha escrita, transformar-se-á em quase imperceptível iluminura. Assim, ergue-se uma hermenêutica, um ritual interpretativo, do grafema materializado na folha que as cinzas deixadas pelo fogo devorador da literatura deixou. Fogo fictício, bem entendido, cujas labaredas se elevam para cima dos mortais e dos deuses antigos e novos (Titãs e/ou Olímpicos, pouco importa) e se demarca dessa ficção menor que é a vida ainda não transformada em escrita. No Prometheus Revinctus bem como na obra de Pessoa em geral, é precisamente de fogo, ora empírico, ora simbólico, ora deflagração visível, ora visão iniciática, que se trata.

Translated title of the contributionConcerning the Unfinished and the Infinite: the Promethean Hypothesis in the work of Fernando Pessoa
Original languagePortuguese
Title of host publicationPrometeu e Fausto em Goethe, Pessoa e alguns mais: Cartografias Dialogantes
Place of PublicationLisbon
PublisherColibri
Pages71-94
Number of pages23
ISBN (Print)978-989-689-788-8
Publication statusPublished - 2018

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religious behavior
animal

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Auretta, C. D. (2018). Em torno do inacabado e do infinito: a hipótese prometeica de Fernando Pessoa. In Prometeu e Fausto em Goethe, Pessoa e alguns mais: Cartografias Dialogantes (pp. 71-94). Lisbon: Colibri.
Auretta, Christopher Damien. / Em torno do inacabado e do infinito: a hipótese prometeica de Fernando Pessoa. Prometeu e Fausto em Goethe, Pessoa e alguns mais: Cartografias Dialogantes. Lisbon : Colibri, 2018. pp. 71-94
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Auretta, CD 2018, Em torno do inacabado e do infinito: a hipótese prometeica de Fernando Pessoa. in Prometeu e Fausto em Goethe, Pessoa e alguns mais: Cartografias Dialogantes. Colibri, Lisbon, pp. 71-94.

Em torno do inacabado e do infinito: a hipótese prometeica de Fernando Pessoa. / Auretta, Christopher Damien.

Prometeu e Fausto em Goethe, Pessoa e alguns mais: Cartografias Dialogantes. Lisbon : Colibri, 2018. p. 71-94.

Research output: Chapter in Book/Report/Conference proceedingConference contribution

TY - GEN

T1 - Em torno do inacabado e do infinito: a hipótese prometeica de Fernando Pessoa

AU - Auretta, Christopher Damien

PY - 2018

Y1 - 2018

N2 - Perante a poesia, e mais especificamente em relação à linguagem poética de Fernando Pessoa, o leitor atento emudece-se, súbito órfão das suas certezas. E, contudo, essa mesma poesia interpela-nos de modo insistente. Só que o acto de compreender, que a poesia nos exige, ocorre numa espécie de voz-off: nunca coincidimos inteira e integralmente com a palavra materializada. Daí, a poesia pertencer a um fenómeno de intimidade: simultaneamente intensa e diferida, extática e desgarrada. Na verdade, o acto de ler poesia exige-nos o jejum dos afamados, o sacrifício dos desarmados, um silêncio maior que o hiato fónico dos emudecidos. É a partir de uma tal tomada de consciência por parte do leitor que a poesia se poderá mais audível e inteligivelmente elevar no horizonte do dizer. Perante a poesia, incumbe a todo o animal falante fixar-se primeiramente neste silêncio. Só assim o evento poético se poderá percepcionar – na consciência de quem nele, ora lê, ora se lê, – como estrutura enunciativa e expressão privilegiada do ser, i.e., em articulada veemência ontológica. Só face a esta luminosa tirania – que a linguagem poética representa para o leitor – é que as nossas capacidades cognitivas se poderão mobilizar devidamente a fim de iluminar essa opacidade comunicativa de que a poesia é primordialmente a consubstanciação. Então, nesse instante, a materialidade gráfica que se espraia na folha escrita, transformar-se-á em quase imperceptível iluminura. Assim, ergue-se uma hermenêutica, um ritual interpretativo, do grafema materializado na folha que as cinzas deixadas pelo fogo devorador da literatura deixou. Fogo fictício, bem entendido, cujas labaredas se elevam para cima dos mortais e dos deuses antigos e novos (Titãs e/ou Olímpicos, pouco importa) e se demarca dessa ficção menor que é a vida ainda não transformada em escrita. No Prometheus Revinctus bem como na obra de Pessoa em geral, é precisamente de fogo, ora empírico, ora simbólico, ora deflagração visível, ora visão iniciática, que se trata.

AB - Perante a poesia, e mais especificamente em relação à linguagem poética de Fernando Pessoa, o leitor atento emudece-se, súbito órfão das suas certezas. E, contudo, essa mesma poesia interpela-nos de modo insistente. Só que o acto de compreender, que a poesia nos exige, ocorre numa espécie de voz-off: nunca coincidimos inteira e integralmente com a palavra materializada. Daí, a poesia pertencer a um fenómeno de intimidade: simultaneamente intensa e diferida, extática e desgarrada. Na verdade, o acto de ler poesia exige-nos o jejum dos afamados, o sacrifício dos desarmados, um silêncio maior que o hiato fónico dos emudecidos. É a partir de uma tal tomada de consciência por parte do leitor que a poesia se poderá mais audível e inteligivelmente elevar no horizonte do dizer. Perante a poesia, incumbe a todo o animal falante fixar-se primeiramente neste silêncio. Só assim o evento poético se poderá percepcionar – na consciência de quem nele, ora lê, ora se lê, – como estrutura enunciativa e expressão privilegiada do ser, i.e., em articulada veemência ontológica. Só face a esta luminosa tirania – que a linguagem poética representa para o leitor – é que as nossas capacidades cognitivas se poderão mobilizar devidamente a fim de iluminar essa opacidade comunicativa de que a poesia é primordialmente a consubstanciação. Então, nesse instante, a materialidade gráfica que se espraia na folha escrita, transformar-se-á em quase imperceptível iluminura. Assim, ergue-se uma hermenêutica, um ritual interpretativo, do grafema materializado na folha que as cinzas deixadas pelo fogo devorador da literatura deixou. Fogo fictício, bem entendido, cujas labaredas se elevam para cima dos mortais e dos deuses antigos e novos (Titãs e/ou Olímpicos, pouco importa) e se demarca dessa ficção menor que é a vida ainda não transformada em escrita. No Prometheus Revinctus bem como na obra de Pessoa em geral, é precisamente de fogo, ora empírico, ora simbólico, ora deflagração visível, ora visão iniciática, que se trata.

M3 - Conference contribution

SN - 978-989-689-788-8

SP - 71

EP - 94

BT - Prometeu e Fausto em Goethe, Pessoa e alguns mais: Cartografias Dialogantes

PB - Colibri

CY - Lisbon

ER -

Auretta CD. Em torno do inacabado e do infinito: a hipótese prometeica de Fernando Pessoa. In Prometeu e Fausto em Goethe, Pessoa e alguns mais: Cartografias Dialogantes. Lisbon: Colibri. 2018. p. 71-94