A obra de Carlos Ribeiro na década de 1857 a 1867 e o problemático abastecimento de água potável à cidade de Lisboa.

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Abstract

Durante a época seca Lisboa apenas dispunha de 8 litros de água por habitante e por dia, uma perfeita miséria, o que não permitia a higiene básica, muito menos a indústria e o crescimento civilizacional. Carlos Ribeiro considerava que o erro das administrações estava em procurar satisfazer as necessidades do momento sem olharem para o futuro, de importância crucial para as próximas gerações, tal como tinha acontecido com o projeto do Aqueduto das Águas Livres no início do século 18. "Se esta vital questão tivesse sido encarada de mais alto no começo do seculo findo, e os 5:000 contos de réis que se dispenderam com as nossas, aliás monumentais, obras das aguas livres tivessem sido empregados na acquisisão e conducção para Lisboa das aguas do Tejo, do Almonda, do Alviela, das Alcobertas, ou de Rio Maior, hoje em vez de crueis sêdes e de decepções por que temos passado, veriamos Lisboa dotada com abundantes aguas potaveis para seu uso, e não teriamos de preoccupar-nos com a questão do presente e do futuro abastecimento do modo por que nos vemos abrigados a fazel-o." (Ribeiro , 1867, p. 34-35) Como abastecer de água a cidade de Lisboa? Com água subterrânea de nascente ou com água superficial captada por galerias filtrantes no rio Tejo? A estas e a outras questões relacionadas procurou responder Carlos Ribeiro por incumbência governamental nas décadas de 50 e 60 do século 19. Em 1857, Carlos Ribeiro foi chamado a fazer o reconhecimento geológico e hidrogeológico dos terrenos das vizinhanças de Lisboa, com o objectivo de avaliar as fontes disponíveis para abastecimento à cidade. Desenvolveu um trabalho minucioso e importante, que justificou a sua apresentação à Academia Real das Ciências e a publicação, em secções, nos Annaes das Sciencias e Lettras da mesma Academia, em 1857 e 1858. Em 29 de Setembro de 1858 contratualizou o governo português com a Companhia Nacional de Abastecimento de Águas a Lisboa a obrigação de fornecer à cidade 13 600 m3 de água por dia durante a maior estiagem. Findo o período de concretização dos projetos aprovados sentiu, esta companhia, a necessidade imediata de reforçar os volumes disponíveis para poder responder no futuro a eventuais aumentos em face do progresso da civilização e do crescimento da cidade. Em 31 de Julho de 1863, foram lançadas obras e projetos para aquisição de novas águas que, em termos de origem, se incluíam em duas classes: uma consistia na represa e adução nos aquedutos do sistema geral de con- 1 Centro de Investigação em Ciências e Engenharia Geológica (CICEGe), Departamento de Ciências da Terra, Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa (UNL), Campus de Caparica, 2829-516 Caparica, Portugal, mmsr@fct.unl.pt 110 dução a Lisboa e obras acessórias; e outra, como complemento da primeira, na construção de galerias filtrantes para captação da água do Tejo. No seguimento, em 3 de Outubro, o governo nomeou uma comissão, onde se incluiu Carlos Ribeiro, "encarregando- a do exame de diversas questões attinentes a este assumpto, e d'entre as quaes as mais importantes eram as seguintes: 1.a Que novas aguas se poderão e deverão aproveitar sem prejuizo da agricultura e da industria, para o abastecimento de Lisboa nos termos do contracto celebrado entre o governo e a companhia; 2.a Que meios se devem adoptar para abastecer Lisboa d'agua, attendendo ao seu estado actual, ao futuro desenvolvimento da sua população, commercio e industria, e ás instantes exigencias da salubridade publica." (Ribeiro , 1867, p. 1-2) Em harmonia com as determinações do governo, foi diligenciado o estudo das questões cometidas à comissão, mais especialmente dos alvitres propostos pela direção da companhia, e das questões relacionadas com o presente e futuro abastecimento de água a Lisboa. Os resultados dos estudos efectuados foram consignados num projeto de relatório, redigido em Fevereiro de 1864, que deu origem a uma Memoria da Academia Real das Ciências, em 1867. Carlos Ribeiro, com base em observações geológicas e hidrogeológicas nas bacias hidrográficas das ribeiras captadas, analisou a viabilidade das propostas da direção da companhia das águas, nomeadamente sobre o ramal de Vale de Lobos em continuação do aqueduto da Mata; conclusão do Aqueduto de Carnaxide e represas feitas em diversos pontos dos antigos e dos novos aquedutos, em Caneças, Quintã, e Fonte de S. Braz. O conhecimento da litostratigrafia e da tectónica permitiram-lhe ajuizar sobre a direção e sentido do escoamento subterrâneo, o funcionamento hidráulico das nascentes, as relações entre as ribeiras e as massas de água subterrânea sobrejacentes aos níveis base de drenagem e, ainda, sobre os volumes susceptíveis de captação. Salientou o interesse de Vale de Lobos, para o qual propôs a exploração subterrânea em todo o comprimento uma vez que, embora de pequena dimensão, esta bacia oferecia melhores características geológicas e condições de armazenamento. Relacionou as nascentes da Mata, bem como as de Dona Maria, em Barracão na estrada de Belas a Sabugo; vale de Carenque e Olelas; com falhas e filões de rochas ígneas nos arenitos e calcários do Cretácico. O abundante caudal observável na ribeira de Vale de Lobos durante o verão, que sugeriu aproveitar, não poderia provir, na sua opinião, exclusivamente das camadas de arenitos do Cretácico, mas da comunicação hidráulica entre este e os calcários subjacentes, feita através dos alinhamentos filonianos que os atravessam. Este aspeto geológico serviu para explicar a falta de água na parte superior das ribeiras contíguas do Jardim e do Castanheiro durante o estio, apesar das bacias hidrográficas serem mais extensas. Particularmente interessante e pioneiro foi o projeto para otimização dos aquedutos de Carnaxide, Caneças, Quintã e S. Braz, consistindo na construção de represas subterrâneas e armazenamento de água para futura utilização em estiagem. Esta solução aproxima-se do que se faz atualmente com as barragens subterrâneas, mais vantajosas que as albufeiras tradicionais. No caso do Aqueduto de Carnaxide, era de opinião desfavorável relativamente ao projeto, por inconveniente e ineficaz. Quanto aos de Caneças e Quintã, considerou serem evidentes as perdas do caudal coletado por fendas e paredes do aqueduto. Porém, para todos eles, apresentava as devidas salvaguardas, baseadas na necessidade de se proceder à compreensão da origem das nascentes e ao comportamento hidrogeológico dos terrenos que as albergam. No Aqueduto de Caneças, considerou que o ganho seria muito pouco importante, dada a fraca permeabilidade da rocha arenosa encaixante; em contraste, por se tratar de calcários no caso do Aqueduto de Quintã, pareceu-lhe acertada a proposta. Assim, as águas procedentes das obras executadas para prolongamento do Aqueduto da Mata, conclusão do de Carnaxide, as represas nos aquedutos de Caneças, Quintã e São Braz não permitiriam alcançar o volume a que se tinha comprometido a companhia. Esta suspeita levou-a a propor também o aproveitamento das águas do Tejo. 111 Em todo o caso concluiu, à luz das observações hidrogeológicas, que qualquer das soluções não contribuiria significativamente para o aumento dos recursos e daí, tal como tinha sido convicção ou suspeita da direção da companhia, propor o aproveitamento das águas do Tejo acima do limite onde se fazem sentir as marés. A influência do que se passava na Europa, nomeadamente, em França, Alemanha, Áustria, Reino Unido e Itália, também deve ter pesado nesta última opção. O projeto de abastecimento a Paris passava, inicialmente, pela derivação de água de nascente e drenagem de terrenos cretácicos em três aquedutos (Dhuis, Somme-Soude e Vanne). Foi depois modificado por Aristides Dumont. Com base em argumentos económicos, propôs a substituição das águas do Somme-Soude e Vanne por águas filtradas do Sena. O abastecimento da cidade de Londres era garantido pelas águas dos rios Tamisa e New River e das ribeiras de Amwel e Lea. Na opinião de Carlos Ribeiro, a organização económica das sociedades modernas onde se situavam as grandes cidades como Londres, Paris, Viena, Berlim e Nova Iorque não deviam a grandeza somente à riqueza acumulada das elites, nem aos sumptuosos e faustosos monumentos, mas ao trabalho do povo que representava mais de dois terços da população. O crescimento só seria possível mediante os cuidados a ter com o bem-estar da população, para o qual deveriam convergir as preocupações dos serviços administrativos. A disponibilização de água gratuita a todos, independentemente da condição social, era indispensável numa grande cidade como acontecia em Inglaterra, França e Alemanha. O crescimento da população destas cidades tinha sido precedido, na maior parte dos casos, de melhoramentos importantes no sistema de abastecimento de águas. Em relação ao abastecimento de água à cidade de Lisboa, considerou ser dever impreterível do governo e do município olharem com séria atenção e procurarem empregar os meios mais adequados e eficazes para cumprimento das necessidades no presente e futuro remoto: "Lisboa não póde, nem deve continuar a existir com os fóros de uma capital europêa, se não tiver aguas abundantissimas para a alimentação individual dos seus habitantes, para as necessidades de hygiene, e para todos os serviços publicos e industriaes ..." (Ribeiro , 1867, p. 79)
Original languageUnknown
Title of host publicationEstudos Arqueológicos de Oeiras
EditorsCâmara Municipal de Oeiras
Place of PublicationOeiras, Lisboa
PublisherCâmara Municipal de Oeiras
Pages109-126
ISBN (Print)O872-6O86
Publication statusPublished - 1 Jan 2013

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NameEstudos Arqueológicos de Oeiras
PublisherCâmara Municipal de Oeiras
Number20

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Ribeiro, M. M. M. S. (2013). A obra de Carlos Ribeiro na década de 1857 a 1867 e o problemático abastecimento de água potável à cidade de Lisboa. In C. M. D. Oeiras (Ed.), Estudos Arqueológicos de Oeiras (pp. 109-126). (Estudos Arqueológicos de Oeiras; No. 20). Oeiras, Lisboa: Câmara Municipal de Oeiras.