A letra e o canto trovadoresco

o Cancioneiro da Biblioteca Nacional [COD. 10991]

Research output: Chapter in Book/Report/Conference proceedingChapter

Abstract

As cantigas trovadorescas galego‑portuguesas são um dos patrimónios mais ricos da Idade Média peninsular. Produzidas durante o período que vai, genericamente, de finais do século XII a meados do século XIV, as cantigas medievais chegaram até nos através de recolhas coletivas conhecidas como Cancioneiros, manuscritos elaborados muito provavelmente a partir de finais do século XIII, ou seja, já numa fase tardia do movimento. No seu essencial, conhecemos as cantigas através de três manuscritos, cuja génese e o percurso são ainda hoje algo obscuros. O mais antigo, datável de inícios do século XIV (e, portanto, o único que será contemporâneo da última geração de trovadores), e o Cancioneiro da Ajuda, rico manuscrito iluminado, mas que é também o mais incompleto, já que contem apenas 310 composições, na sua esmagadora maioria de um único género, a cantiga de amor. Descoberto na biblioteca do Colégio dos Nobres em inícios do século XIX, e hoje guardado na Biblioteca do Palácio da Ajuda, em Lisboa, trata‑se ainda de um manuscrito que ficou manifestamente inacabado, como é muito visível nas suas iluminuras, muitas delas com pintura incompleta ou mesmo com figuras apenas desenhadas. Os outros dois manuscritos, conhecidos como Cancioneiro da Biblioteca Nacional (também chamado Cancioneiro Colocci‑Brancuti, o mais completo, guardado em Lisboa, na BNP) e Cancioneiro da Vaticana (guardado na Biblioteca Apostólica Vaticana), são manuscritos copiados em Itália, nas primeiras décadas do século XVI, sob as ordens do humanista Angelo Colocci, e a partir de um cancioneiro anterior, muito certamente medieval, hoje desaparecido. Nesta sessão faremos, pois, uma pequena visita guiada aos dois preciosos Cancioneiros hoje guardados em Portugal, o Cancioneiro da Ajuda e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional, discutindo ainda os interessantes problemas que eles colocam a investigação mais recente

Medieval Galician‑Portuguese Cantigas (songs) remain as one of the richest parts of Iberian Peninsula’s Middle Ages heritage. Written in a time range of about 150 years, generically from the end of the twelfth century to mid‑fourteenth century, medieval Cantigas survived throughout three major manuscripts. The oldest one, Cancioneiro da Ajuda (A), may be dated at the early fourteenth century and it is the only one contemporary of the last generation of troubadours. It is a rich enlightened manuscript, but also the most incomplete, since it contains only 310 compositions, of which the overwhelming majority belong to a single genre, cantiga de amor. Discovered at the early nineteenth century, in the Library of Colégio dos Nobres, it is stored today at Ajuda’s National Library and we know little about its origins or course. It is anyway a clearly unfinished manuscript, which is visible through many of its miniatures, which present incomplete painting or merely drawn figures (the same applies to the initials). The two other manuscripts, Cancioneiro da Biblioteca Nacional (B, also known as Cancioneiro Colocci‑Brancuti, the most complete, stored at Portugal National Library in Lisbon) and Cancioneiro da Vaticana (V, stored at the Vatican Apostolic Library), are copies made in Italy in the first decades of sixteenth century, under the orders of Angelo Colocci, a well‑known humanist, after a former medieval songbook now disappeared. In what follows, we will make a small guided tour to the two precious Songbooks today kept in Portugal, the Cancioneiro of the National Library and the Cancioneiro of Ajuda, also discussing the interesting problems they pose to the latest research.
Original languageEnglish
Title of host publicationLuz, cor e ouro
Subtitle of host publicationEstudos sobre manuscritos iluminados
EditorsCatarina Fernandes Barreira
Place of PublicationLisboa
PublisherBiblioteca Nacional de Portugal
Pages183-198
Number of pages12
ISBN (Electronic)978-972-565-600-6
Publication statusPublished - 2016

Fingerprint

The Cantos
Cantigas
Manuscripts
Medieval Period
National Libraries
Portugal
Incomplete
Songbook
12th Century
Heritage
Italy
Humanist
Lisbon
Vatican
Troubadours
Apostolic
Iberian Peninsula
Song
Visible

Keywords

  • Medieval
  • Cancioneiros
  • Poesia
  • Música
  • Songbooks
  • Troubadours
  • Poetry
  • Music

Cite this

Lopes, M. D. G. V. (2016). A letra e o canto trovadoresco: o Cancioneiro da Biblioteca Nacional [COD. 10991]. In C. F. Barreira (Ed.), Luz, cor e ouro: Estudos sobre manuscritos iluminados (pp. 183-198). Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal.
Lopes, Maria da Graça Videira. / A letra e o canto trovadoresco : o Cancioneiro da Biblioteca Nacional [COD. 10991]. Luz, cor e ouro: Estudos sobre manuscritos iluminados. editor / Catarina Fernandes Barreira. Lisboa : Biblioteca Nacional de Portugal, 2016. pp. 183-198
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Lopes, MDGV 2016, A letra e o canto trovadoresco: o Cancioneiro da Biblioteca Nacional [COD. 10991]. in CF Barreira (ed.), Luz, cor e ouro: Estudos sobre manuscritos iluminados. Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa, pp. 183-198.

A letra e o canto trovadoresco : o Cancioneiro da Biblioteca Nacional [COD. 10991]. / Lopes, Maria da Graça Videira.

Luz, cor e ouro: Estudos sobre manuscritos iluminados. ed. / Catarina Fernandes Barreira. Lisboa : Biblioteca Nacional de Portugal, 2016. p. 183-198.

Research output: Chapter in Book/Report/Conference proceedingChapter

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T1 - A letra e o canto trovadoresco

T2 - o Cancioneiro da Biblioteca Nacional [COD. 10991]

AU - Lopes, Maria da Graça Videira

PY - 2016

Y1 - 2016

N2 - As cantigas trovadorescas galego‑portuguesas são um dos patrimónios mais ricos da Idade Média peninsular. Produzidas durante o período que vai, genericamente, de finais do século XII a meados do século XIV, as cantigas medievais chegaram até nos através de recolhas coletivas conhecidas como Cancioneiros, manuscritos elaborados muito provavelmente a partir de finais do século XIII, ou seja, já numa fase tardia do movimento. No seu essencial, conhecemos as cantigas através de três manuscritos, cuja génese e o percurso são ainda hoje algo obscuros. O mais antigo, datável de inícios do século XIV (e, portanto, o único que será contemporâneo da última geração de trovadores), e o Cancioneiro da Ajuda, rico manuscrito iluminado, mas que é também o mais incompleto, já que contem apenas 310 composições, na sua esmagadora maioria de um único género, a cantiga de amor. Descoberto na biblioteca do Colégio dos Nobres em inícios do século XIX, e hoje guardado na Biblioteca do Palácio da Ajuda, em Lisboa, trata‑se ainda de um manuscrito que ficou manifestamente inacabado, como é muito visível nas suas iluminuras, muitas delas com pintura incompleta ou mesmo com figuras apenas desenhadas. Os outros dois manuscritos, conhecidos como Cancioneiro da Biblioteca Nacional (também chamado Cancioneiro Colocci‑Brancuti, o mais completo, guardado em Lisboa, na BNP) e Cancioneiro da Vaticana (guardado na Biblioteca Apostólica Vaticana), são manuscritos copiados em Itália, nas primeiras décadas do século XVI, sob as ordens do humanista Angelo Colocci, e a partir de um cancioneiro anterior, muito certamente medieval, hoje desaparecido. Nesta sessão faremos, pois, uma pequena visita guiada aos dois preciosos Cancioneiros hoje guardados em Portugal, o Cancioneiro da Ajuda e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional, discutindo ainda os interessantes problemas que eles colocam a investigação mais recenteMedieval Galician‑Portuguese Cantigas (songs) remain as one of the richest parts of Iberian Peninsula’s Middle Ages heritage. Written in a time range of about 150 years, generically from the end of the twelfth century to mid‑fourteenth century, medieval Cantigas survived throughout three major manuscripts. The oldest one, Cancioneiro da Ajuda (A), may be dated at the early fourteenth century and it is the only one contemporary of the last generation of troubadours. It is a rich enlightened manuscript, but also the most incomplete, since it contains only 310 compositions, of which the overwhelming majority belong to a single genre, cantiga de amor. Discovered at the early nineteenth century, in the Library of Colégio dos Nobres, it is stored today at Ajuda’s National Library and we know little about its origins or course. It is anyway a clearly unfinished manuscript, which is visible through many of its miniatures, which present incomplete painting or merely drawn figures (the same applies to the initials). The two other manuscripts, Cancioneiro da Biblioteca Nacional (B, also known as Cancioneiro Colocci‑Brancuti, the most complete, stored at Portugal National Library in Lisbon) and Cancioneiro da Vaticana (V, stored at the Vatican Apostolic Library), are copies made in Italy in the first decades of sixteenth century, under the orders of Angelo Colocci, a well‑known humanist, after a former medieval songbook now disappeared. In what follows, we will make a small guided tour to the two precious Songbooks today kept in Portugal, the Cancioneiro of the National Library and the Cancioneiro of Ajuda, also discussing the interesting problems they pose to the latest research.

AB - As cantigas trovadorescas galego‑portuguesas são um dos patrimónios mais ricos da Idade Média peninsular. Produzidas durante o período que vai, genericamente, de finais do século XII a meados do século XIV, as cantigas medievais chegaram até nos através de recolhas coletivas conhecidas como Cancioneiros, manuscritos elaborados muito provavelmente a partir de finais do século XIII, ou seja, já numa fase tardia do movimento. No seu essencial, conhecemos as cantigas através de três manuscritos, cuja génese e o percurso são ainda hoje algo obscuros. O mais antigo, datável de inícios do século XIV (e, portanto, o único que será contemporâneo da última geração de trovadores), e o Cancioneiro da Ajuda, rico manuscrito iluminado, mas que é também o mais incompleto, já que contem apenas 310 composições, na sua esmagadora maioria de um único género, a cantiga de amor. Descoberto na biblioteca do Colégio dos Nobres em inícios do século XIX, e hoje guardado na Biblioteca do Palácio da Ajuda, em Lisboa, trata‑se ainda de um manuscrito que ficou manifestamente inacabado, como é muito visível nas suas iluminuras, muitas delas com pintura incompleta ou mesmo com figuras apenas desenhadas. Os outros dois manuscritos, conhecidos como Cancioneiro da Biblioteca Nacional (também chamado Cancioneiro Colocci‑Brancuti, o mais completo, guardado em Lisboa, na BNP) e Cancioneiro da Vaticana (guardado na Biblioteca Apostólica Vaticana), são manuscritos copiados em Itália, nas primeiras décadas do século XVI, sob as ordens do humanista Angelo Colocci, e a partir de um cancioneiro anterior, muito certamente medieval, hoje desaparecido. Nesta sessão faremos, pois, uma pequena visita guiada aos dois preciosos Cancioneiros hoje guardados em Portugal, o Cancioneiro da Ajuda e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional, discutindo ainda os interessantes problemas que eles colocam a investigação mais recenteMedieval Galician‑Portuguese Cantigas (songs) remain as one of the richest parts of Iberian Peninsula’s Middle Ages heritage. Written in a time range of about 150 years, generically from the end of the twelfth century to mid‑fourteenth century, medieval Cantigas survived throughout three major manuscripts. The oldest one, Cancioneiro da Ajuda (A), may be dated at the early fourteenth century and it is the only one contemporary of the last generation of troubadours. It is a rich enlightened manuscript, but also the most incomplete, since it contains only 310 compositions, of which the overwhelming majority belong to a single genre, cantiga de amor. Discovered at the early nineteenth century, in the Library of Colégio dos Nobres, it is stored today at Ajuda’s National Library and we know little about its origins or course. It is anyway a clearly unfinished manuscript, which is visible through many of its miniatures, which present incomplete painting or merely drawn figures (the same applies to the initials). The two other manuscripts, Cancioneiro da Biblioteca Nacional (B, also known as Cancioneiro Colocci‑Brancuti, the most complete, stored at Portugal National Library in Lisbon) and Cancioneiro da Vaticana (V, stored at the Vatican Apostolic Library), are copies made in Italy in the first decades of sixteenth century, under the orders of Angelo Colocci, a well‑known humanist, after a former medieval songbook now disappeared. In what follows, we will make a small guided tour to the two precious Songbooks today kept in Portugal, the Cancioneiro of the National Library and the Cancioneiro of Ajuda, also discussing the interesting problems they pose to the latest research.

KW - Medieval

KW - Cancioneiros

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Lopes MDGV. A letra e o canto trovadoresco: o Cancioneiro da Biblioteca Nacional [COD. 10991]. In Barreira CF, editor, Luz, cor e ouro: Estudos sobre manuscritos iluminados. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal. 2016. p. 183-198