A composição de música original para os filmes A Rosa do Adro (1919) e Os Fidalgos da Casa Mourisca (1921) 

na construção de um cinema narrativo "tipicamente português"

Research output: Contribution to conferenceAbstract

Abstract

Os debates científicos sobre cinema têm-se vindo a pautar, crescentemente, por abordagens que põem em diálogo as várias artes, a partir de um esforço de distanciamento face à primazia da imagem em movimento pela comunidade dos estudos fílmicos, bem como pela atenção dada ao cinema por áreas científicas que dialogam entre si com abordagens disciplinares variadas. Não obstante, mesmo com abertura inter e multidisciplinar que os estudos artísticos e os estudos culturais têm fomentado, continuamos a ver relegada para a musicologia a investigação sobre os materiais musicais. À “surdez” das várias áreas, entre outros factores assente num paradigma académico que viu durante muito tempo os materiais musicais como exteriores à obra e ao evento cinematográfico, somou-se o desinteresse da comunidade musicológica por se debruçar sobre os materiais cinematográficos e a música que desses faz parte ou que para esses é feita.
Esta realidade começou a sofrer alterações com o desenvolvimento dos film music studies, no final da década de 1980 nas universidades americanas. Conjugado com o progressivo interesse no cinema mudo após a conhecida 34th FIAF Conference, em Brighton, 1978, a institucionalização dos film music studies encetou também os estudos sobre as primeiras décadas do cinema e, finalmente, tornou audível a música e os sons dos filmes mudos. Mantendo presente a proposta de Rick Altman de cinema como evento, que privilegia a dialéctica entre o trabalho de produção e o processo de recepção, com um esbatimento da hierarquia dos elementos de análise e da leitura do cinema como texto fílmico em prol da abertura ao campo cultural e tecnológico, os film music studies têm vindo a dinamizar-se consideravelmente nas últimas décadas e expandido a contextos nacionais europeus, nomeadamente França, Grã-Bretanha, Itália e Áustria.
O processo pouco linear de narrativização do cinema e da afirmação da era narrativa, em Portugal, foi impulsionada pelas produtoras emergentes entre 1918 e 1925, nomeadamente a Invicta Film, que arrancou com um investimento significativo em longas-metragens de ficção, categorizadas à época como “tipicamente portuguesas”. Contemplando um conjunto de características já trabalhadas no domínio dos estudos fílmicos, a opção nacionalizante cumpria o duplo propósito de distinguir a cinematografia portuguesa de outras cinematografias nacionais e garantir a entrada nos mercados nacional e internacional, ao mesmo tempo que fazia propaganda do país no estrangeiro. A autonomia cultural e estética subjacente a este quadro procuraria ainda atingir uma noção de totalidade da obra também através da música. Nesse sentido, iniciou-se um trabalho de colaboração com o folclorista Armando Leça, que asseguraria a composição de música para acompanhamento de diversos filmes da produtora. A partir das partituras para os filmes A Rosa do Adro (1919) e Os Fidalgos da Casa Mourisca (1921), de Georges Pallu, proponho-me discutir o papel da música na afirmação de um cinema narrativo nacional, em diálogo com as realidades internacionais e o modo como os film music studies foram gerindo e propondo novas abordagens interdisciplinares e transnacionais à circulação de paradigmas de composição e acompanhamento de filmes mudos.
Original languagePortuguese
Pages67-68
Number of pages2
Publication statusPublished - 2018
EventIII Encontro Internacional O Cinema e as outras Artes - Universidade da Beira Interior, Covilhã, Portugal
Duration: 24 Oct 201826 Oct 2018
http://labcom-ifp.ubi.pt/files/ocinemaeasoutrasartes/

Conference

ConferenceIII Encontro Internacional O Cinema e as outras Artes
CountryPortugal
CityCovilhã
Period24/10/1826/10/18
Internet address

Keywords

  • Música portuguesa
  • cinema mudo
  • Film Music Studies
  • Cinema português
  • Invicta Film

Cite this

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A composição de música original para os filmes A Rosa do Adro (1919) e Os Fidalgos da Casa Mourisca (1921)  : na construção de um cinema narrativo "tipicamente português". / Carvalho, Bárbara.

2018. 67-68 Abstract from III Encontro Internacional O Cinema e as outras Artes, Covilhã, Portugal.

Research output: Contribution to conferenceAbstract

TY - CONF

T1 - A composição de música original para os filmes A Rosa do Adro (1919) e Os Fidalgos da Casa Mourisca (1921) 

T2 - na construção de um cinema narrativo "tipicamente português"

AU - Carvalho, Bárbara

N1 - info:eu-repo/grantAgreement/FCT/5876/147237/PT# UID/EAT/00693/2013

PY - 2018

Y1 - 2018

N2 - Os debates científicos sobre cinema têm-se vindo a pautar, crescentemente, por abordagens que põem em diálogo as várias artes, a partir de um esforço de distanciamento face à primazia da imagem em movimento pela comunidade dos estudos fílmicos, bem como pela atenção dada ao cinema por áreas científicas que dialogam entre si com abordagens disciplinares variadas. Não obstante, mesmo com abertura inter e multidisciplinar que os estudos artísticos e os estudos culturais têm fomentado, continuamos a ver relegada para a musicologia a investigação sobre os materiais musicais. À “surdez” das várias áreas, entre outros factores assente num paradigma académico que viu durante muito tempo os materiais musicais como exteriores à obra e ao evento cinematográfico, somou-se o desinteresse da comunidade musicológica por se debruçar sobre os materiais cinematográficos e a música que desses faz parte ou que para esses é feita. Esta realidade começou a sofrer alterações com o desenvolvimento dos film music studies, no final da década de 1980 nas universidades americanas. Conjugado com o progressivo interesse no cinema mudo após a conhecida 34th FIAF Conference, em Brighton, 1978, a institucionalização dos film music studies encetou também os estudos sobre as primeiras décadas do cinema e, finalmente, tornou audível a música e os sons dos filmes mudos. Mantendo presente a proposta de Rick Altman de cinema como evento, que privilegia a dialéctica entre o trabalho de produção e o processo de recepção, com um esbatimento da hierarquia dos elementos de análise e da leitura do cinema como texto fílmico em prol da abertura ao campo cultural e tecnológico, os film music studies têm vindo a dinamizar-se consideravelmente nas últimas décadas e expandido a contextos nacionais europeus, nomeadamente França, Grã-Bretanha, Itália e Áustria. O processo pouco linear de narrativização do cinema e da afirmação da era narrativa, em Portugal, foi impulsionada pelas produtoras emergentes entre 1918 e 1925, nomeadamente a Invicta Film, que arrancou com um investimento significativo em longas-metragens de ficção, categorizadas à época como “tipicamente portuguesas”. Contemplando um conjunto de características já trabalhadas no domínio dos estudos fílmicos, a opção nacionalizante cumpria o duplo propósito de distinguir a cinematografia portuguesa de outras cinematografias nacionais e garantir a entrada nos mercados nacional e internacional, ao mesmo tempo que fazia propaganda do país no estrangeiro. A autonomia cultural e estética subjacente a este quadro procuraria ainda atingir uma noção de totalidade da obra também através da música. Nesse sentido, iniciou-se um trabalho de colaboração com o folclorista Armando Leça, que asseguraria a composição de música para acompanhamento de diversos filmes da produtora. A partir das partituras para os filmes A Rosa do Adro (1919) e Os Fidalgos da Casa Mourisca (1921), de Georges Pallu, proponho-me discutir o papel da música na afirmação de um cinema narrativo nacional, em diálogo com as realidades internacionais e o modo como os film music studies foram gerindo e propondo novas abordagens interdisciplinares e transnacionais à circulação de paradigmas de composição e acompanhamento de filmes mudos.

AB - Os debates científicos sobre cinema têm-se vindo a pautar, crescentemente, por abordagens que põem em diálogo as várias artes, a partir de um esforço de distanciamento face à primazia da imagem em movimento pela comunidade dos estudos fílmicos, bem como pela atenção dada ao cinema por áreas científicas que dialogam entre si com abordagens disciplinares variadas. Não obstante, mesmo com abertura inter e multidisciplinar que os estudos artísticos e os estudos culturais têm fomentado, continuamos a ver relegada para a musicologia a investigação sobre os materiais musicais. À “surdez” das várias áreas, entre outros factores assente num paradigma académico que viu durante muito tempo os materiais musicais como exteriores à obra e ao evento cinematográfico, somou-se o desinteresse da comunidade musicológica por se debruçar sobre os materiais cinematográficos e a música que desses faz parte ou que para esses é feita. Esta realidade começou a sofrer alterações com o desenvolvimento dos film music studies, no final da década de 1980 nas universidades americanas. Conjugado com o progressivo interesse no cinema mudo após a conhecida 34th FIAF Conference, em Brighton, 1978, a institucionalização dos film music studies encetou também os estudos sobre as primeiras décadas do cinema e, finalmente, tornou audível a música e os sons dos filmes mudos. Mantendo presente a proposta de Rick Altman de cinema como evento, que privilegia a dialéctica entre o trabalho de produção e o processo de recepção, com um esbatimento da hierarquia dos elementos de análise e da leitura do cinema como texto fílmico em prol da abertura ao campo cultural e tecnológico, os film music studies têm vindo a dinamizar-se consideravelmente nas últimas décadas e expandido a contextos nacionais europeus, nomeadamente França, Grã-Bretanha, Itália e Áustria. O processo pouco linear de narrativização do cinema e da afirmação da era narrativa, em Portugal, foi impulsionada pelas produtoras emergentes entre 1918 e 1925, nomeadamente a Invicta Film, que arrancou com um investimento significativo em longas-metragens de ficção, categorizadas à época como “tipicamente portuguesas”. Contemplando um conjunto de características já trabalhadas no domínio dos estudos fílmicos, a opção nacionalizante cumpria o duplo propósito de distinguir a cinematografia portuguesa de outras cinematografias nacionais e garantir a entrada nos mercados nacional e internacional, ao mesmo tempo que fazia propaganda do país no estrangeiro. A autonomia cultural e estética subjacente a este quadro procuraria ainda atingir uma noção de totalidade da obra também através da música. Nesse sentido, iniciou-se um trabalho de colaboração com o folclorista Armando Leça, que asseguraria a composição de música para acompanhamento de diversos filmes da produtora. A partir das partituras para os filmes A Rosa do Adro (1919) e Os Fidalgos da Casa Mourisca (1921), de Georges Pallu, proponho-me discutir o papel da música na afirmação de um cinema narrativo nacional, em diálogo com as realidades internacionais e o modo como os film music studies foram gerindo e propondo novas abordagens interdisciplinares e transnacionais à circulação de paradigmas de composição e acompanhamento de filmes mudos.

KW - Música portuguesa

KW - cinema mudo

KW - Film Music Studies

KW - Cinema português

KW - Invicta Film

M3 - Abstract

SP - 67

EP - 68

ER -