A Aquisição da estrutura passiva em português europeu

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Abstract

O objetivo deste trabalho é analisar como se processa a aquisição de estruturas passivas em português europeu, mais especificamente no que diz respeito à sua compreensão. A pesquisa na área da aquisição e processamento da passiva revela que as dificuldades inerentes a esta construção podem tornar mais difícil não só a sua produção, como também a compreensão em diferentes línguas. Os aparentes atrasos são explicados de diferentes formas: alguns relacionam-nos com a maturação de habilidades linguísticas (Borer & Wexler 1987; Hirsch & Wexler 2007); outros apontam para um processo de reconhecimento de uma possível hierarquia temática (Fox & Grodzinsky 1998); há ainda os que valorizam o conhecimento que advém do input (Gordon & Chafetz 1990; Demuth et al. 2010); por fim, alguns estudos enfatizam as funções discursivas e pragmáticas implicadas no uso desta construção (Tomasello 2000; Marchman et al. 1991). Numa posição oposta, começam a surgir estudos que apontam para a inexistência de atrasos com passivas, sendo o sucesso atribuído à necessidade de estarem reunidas as “condições de sucesso” nos estudos experimentais, ainda que outros fatores possam estar implicados (O’Brien et al. 2006; Thatcher et al. 2008). Com este estudo, pretende-se colmatar a inexistência de dados sistemáticos sobre a aquisição de passivas em português. Para tal, apresentam-se os resultados de quatro estudos experimentais sobre a compreensão desta estrutura. O primeiro visa testar a compreensão de passivas longas e curtas com verbos agentivos; o segundo e terceiro analisam a compreensão de passivas com verbos agentivos e com verbos não agentivos; e o quarto avalia se as crianças distinguem os três tipos de passiva (passivas eventivas, resultativas e estativas) em análise e as respetivas propriedades. Os resultados mostram, em primeiro lugar, que as crianças conseguem interpretar passivas com verbos agentivos a partir dos quatro anos, não havendo diferenças no desempenho perante a interpretação de passivas curtas e longas. Em segundo, as passivas com verbos não agentivos revelam-se problemáticas para as crianças das diferentes faixas etárias, sendo de referir que as frases ativas com verbos não agentivos também implicam dificuldades acrescidas. Em terceiro lugar, a análise dos resultados do quarto estudo revela que, aos cinco anos, as crianças não apresentam diferenças significativas entre os juízos de gramaticalidade atribuídos aos vários tipos de passivas, revelando um desempenho ao nível do acaso, ao contrário do que acontece com as crianças de seis anos. Os contrastes de gramaticalidade não são totalmente compreendidos pelas crianças desta faixa etária, mas já se nota um desenvolvimento estatisticamente significativo no reconhecimento que fazem do contraste, nomeadamente, entre as passivas eventivas e estativas; e resultativas e estativas. A análise dos dados de um corpus de aquisição completa estes resultados, mostrando que ainda antes dos dois anos há crianças a produzir passivas estativas, sendo as eventivas e as resultativas produzidas antes dos três. Este estudo permite-nos avaliar as diferentes propostas da literatura, abarcando vários aspetos relevantes da aquisição da passiva, uma estrutura em que estão implicados diferentes fatores, que justificam que o processamento dos vários tipos de passiva ocorra de forma gradual.
Original languagePortuguese
Place of PublicationBerlim
PublisherNovas Edições Académicas
Number of pages384
ISBN (Print)978-3-639-68053-9
Publication statusPublished - 1 Jan 2014

Keywords

  • aquisição da linguagem
  • estrutura passiva
  • passiva eventiva, resultativa e estativa

Cite this

Estrela, A. P. (2014). A Aquisição da estrutura passiva em português europeu. Berlim: Novas Edições Académicas.