Para Que(m) Serve uma Associação? Associações profissionais, campo cultural e Estado Novo: o caso do Grémio Nacional dos Editores e Livreiros

Medeiros, N. (Speaker)

Activity: Talk or presentationOral presentation

Description

Face às alterações jurídico-administrativas que decorreram da institucionalização do Estado Novo no plano específico da tentativa de instituição de um regime corporativo, a associação profissional do sector do livro opta pela adesão voluntária aos princípios recém-formalizados no atinente ao reordenamento das relações entre os vários grupos e sectores socioprofissionais. Convertida a Associação de Classe dos Editores e Livreiros de Portugal em Grémio Nacional dos Editores e Livreiros (GNEL), o alvará de 1939 que materializa a transformação e que aprova os primeiros estatutos do GNEL representa formalmente a entrada associativa dos editores no sistema de regulação que o Estado Novo procurou implantar, constituindo-se o novo grémio em organismo corporativo. Esta estratégia parece contradizer o discurso e mesmo a prática de muitos agentes do mundo do livro relativamente a um poder público que era visto como inimigo da cultura e da livre expressão das ideias e da criação. Face a esta aparente contradição entre, por um lado, a retórica e acção de um conjunto não negligenciável de representantes do mundo do livro, estribadas frequentemente na assunção de uma identidade que buscou legitimação no princípio do primado cultural, e, por outro, a actuação do órgão de representação colectiva dos interesses do sector do livro, emergem no observador algumas perplexidades. Sabendo-se que os grémios facultativos, caso do GNEL, conheceram possibilidades de actuação com maior grau de autonomia do que o dos obrigatórios, mas ainda assim bem mais limitado do que o das velhas associações, ficando, desse ponto de vista, a perder, impõe-se a indagação: porque terão querido os editores e os livreiros integrar organicamente a organização corporativa do Estado Novo? Utilizando como mote esta interrogação, esta comunicação procura trilhar caminhos de interpretação em torno do tema da actividade organizada no campo editorial e livreiro durante o período do Estado Novo, focando o esforço analítico em termos empíricos no GNEL, da sua fundação ao seu ocaso. Reconhece-se, antes de mais, o carácter rugoso e multifacetado do sector do livro durante o período do Estado Novo, reconhecendo-se igualmente os modos plurais de entender o próprio regime e as relações que estabelecia com o campo cultural, em particular o do livro editado. Face ao tema proposto, o objectivo central desta comunicação consiste na abordagem das tensões, quando não paradoxos, que são próprias da pesquisa sobre o mundo social do livro, como se procurará demonstrar. Partindo de um ponto de vista institucional de explicação, a apresentação reafirma e ilustra o velho imperativo da historicização dos actores e dos contextos, estabelecendo um jogo hermenêutico permanente em que o objecto concreto se confronta com os modelos explicativos. Não como forma de contestação da história institucional no estudo que esta faça do papel de interlocução pública e privada com as instâncias económicas e administrativas; antes como via de complexificação cujo corolário se traduz numa leitura articulada do que surge como contraditório e tensional.
Period18 Nov 2011
Event titleXXXI Encontro da Associação Portuguesa de História Económica e Social: Economia e Instituições: perspectivas históricas
Event typeConference
Conference number31
LocationCoimbra, Portugal
Degree of RecognitionNational