O recado do Morro: O pequeno milagre do reconhecimento

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Nesta comunicação foram abordados aspectos da parábase “Recado do Morro”, uma das sete narrativas de Corpo de baile, do escritor brasileiro João Guimarães Rosa. O início da narrativa, é um proêmio que apresenta o protagonista, o lugar, o tempo e o enredo: “Sem que bem se saiba, conseguiu-se rastrear pelo avesso um caso de vida e de morte, extraordinariamente comum, que se armou com o enxadeiro Pedro Orósio (também acudindo por Pedrão Chãbergo ou Pê-Boi, de alcunha), e teve princípio e fim, num julho-agosto, nos fundos do município onde ele residia; em sua raia noroesteã, para dizer com rigor.” Pedro Osório conduz uma pequena comitiva pelo sertão, composta por um naturalista, um frade e o filho de um fazendeiro, e o tropeiro Ivo Crônico que, por ciúme, armará uma emboscada para assassiná-lo. Contudo se o resumo da história é dado já nas primeiras linhas, Rosa retoma as seguintes palavras que Paulo Rónai escreveu em 1956, para localizar seu tradutor italiano: “Em O recado do morro, testemunha-se a gênese de uma canção que se cristaliza imperceptível e acessoriamente no decorrer de uma expedição científica. Brotada de um germe caído no perturbado espírito de um louco, alimentada e desenvolvida pela colaboração ocasional de outros lunáticos, acaba nas mãos de um brado popular que lhe dá forma e sentido”.1 Aquilo que o ouvido de Pedro Orósio não captara no momento mesmo em que o recado era passado, desde o início da viagem, e que vai circulando de mensageiro a mensageiro, de maneira cifrada, só será compreendido por meio de uma busca ativa, ou seja, se dá por meio de uma recordação. É quando cantarola a canção composta por Pulgapé, que Pedro aprendera de cor, que a mensagem cifrada pode ser decodificada, permitindo-lhe desarmar a estratégia de seus inimigos e vencê-los. Portanto, naquele “intervalo de tempo, entre a impressão original e seu retorno que a recordação percorre”2 deu-se o reconhecimento e Pedro derrotou seus inimigos. Em A memória, a história e o esquecimento, Paul Ricouer esclarece a diferença entre memória e imaginação, partindo da maneira conforme tais conceitos são tratados por Platão e Aristóteles. Em Aristóteles, a memória seria a representação de alguma coisa anteriormente percebida, adquirida ou aprendida, que preconizaria a inclusão da problemática da imagem na lembrança. Nessa acepção, anamnésis seria volta, retomada, recobramento do que anteriormente foi visto, experimentado ou aprendido. Contudo o elo entre esses dois eventos, esquecer e lembrar, seria assegurado pela distância temporal. É esse intervalo entre a impressão original e seu retorno, que a recordação percorre.3 Portanto, é a percepção do movimento que permite a percepção do tempo, daí a importância de se compreender a ideia de anterioridade. Se, na acepção aristotélica, ana, de anammmesis, significa retomada do que anteriormente foi visto, experimentado ou aprendido, e esse esforço da recordação pode ou não ser bem-sucedido, neste caso, o foi. Ao recordar-se da canção e entoá-la, houve aquele “pingo de instante” em que Pedro Orósio percebeu a mensagem cifrada na canção e escapou da morte. Portanto, nesta parábase, recordação, reconhecimento e salvação acontecem no mesmo instante. Se “o pequeno milagre do reconhecimento é de envolver em presença a alteridade do percorrido”4; não há dúvida de que esse reconhecimento não só salvou Pedro da morte anunciada, como também, ao transformar os recados em canção, Pulgapé construiu uma narrativa poética e instauro-a, não apenas no imaginário das personagens, mas, em certa medida, Rosa inseminou-a na memória de seus leitores.
Period12 Oct 2021
Event titleI Colóquio Caminhos da Investigação em Literaturas de Língua Portuguesa
Event typeConference
Conference number1
LocationCoimbra, Portugal
Degree of RecognitionNational

Keywords

  • Literatura Brasileia
  • Guimarães Rosa
  • Corpo de baile