O Futuro do Trabalho em Portugal: O Imperativo da Requalificação

Brinca, P. M. S. (Consultant), Duarte, J. B. N. A. (Consultant)

Activity: Consultancy

Description

• Portugal apresenta um elevado potencial de automação, em que 50% do tempo despendido em tarefas laborais é suscetível de ser automatizado recorrendo a tecnologias já existentes, podendo o mesmo aumentar para 67% em 2030 mediante o aparecimento de novas tecnologias. • A taxa de adoção de tecnologias de automação face ao potencial na próxima década depende de diversos fatores, tais como o preço do investimento em equipamentos, a resistência a novas tecnologias, e o ciclo económico. Portanto, a velocidade com que novas tecnologias são adotadas depende da força relativa destes fatores. Por exemplo, na atual fase do ciclo económico, com uma baixa taxa de desemprego, faz com que as empresas tenham maior dificuldade em encontrar mão-de-obra, o que por sua vez incentiva o investimento em automação, sendo este, portanto, um fator que acelera o processo de adoção de novas tecnologias.• Não sendo possível prever com precisão como os diversos fatores mencionados acima irão determinar a taxa de adoção de novas tecnologias na próxima década, o presente estudo analisa o impacto da automação a partir de cenários. O cenário base assume que metade das tarefas que têm potencial de ser automatizadas serão automatizadas até 2030. Este cenário base implica numa redução de 1,1 milhões de postos de trabalho. As maiores reduções de postos de trabalho em virtude da automação estão concentradas em ocupações previsíveis e físicas, processamento e recolha de dados, e nos setores da manufatura, comércio por grosso e a retalho, suporte administrativo e governo, e agricultura.• No entanto, para o mesmo cenário de adoção de automação, 0,6-1,1 milhões de novos empregos também ao crescimento direto dos setores ligados à oferta e manutenção de tecnologias ligadas à automação, e, por outro lado, ao crescimento económico que tem origem no aumento da produtividade que a automação proporciona. A criação de emprego também dependerá das adotadas pelo Estado em resposta à automação, e da geração de novos tipos de ocupação. Num cenário onde todas estas fontes de criação de emprego se verifiquem, é possível que a quantidade de postos de trabalho em termos líquidos permaneça inalterada;• O que fica claro neste estudo é que independentemente do número de postos de postos de trabalho criados ou perdidos em termos líquidos, cerca de 700 mil trabalhadores terão de alterar a sua ocupação ou adquirir novas capacidades até 2030. Este é fundamentalmente o grande desafio colocado pela automação. É preciso que a força de trabalho se requalifique1atempadamente, para que os postos de trabalho criados em ocupações e setores diferentes possam ser ocupados pelos trabalhadores que viram a sua ocupação automatizada;• Dado que os vários setores da economia serão afetados em diferentes graus, o impacto da automação não será homogéneo entre as diversas regiões do país, devido às diferenças existentes na composição do tecido empresarial. Neste sentido, o maior impacto em percentagem do emprego regional estará concentrado em regiões onde a manufatura, comércio, atividades administrativas e agricultura têm uma elevada participação no total do emprego. O nosso estudo conclui que o Norte, Lisboa e Algarve são as regiões menos afetadas face à média nacional no que toca a perda de postos de trabalho, enquanto que o Centro e o Alentejo são as regiões mais afetadas. Adicionalmente, verificamos que esta conclusão se mantém empoderão ser criados devido, por um lado, termos de mudanças líquidas de emprego, isto é, quando temos também em conta a criação de emprego prevista pelas tendências demográficas e económicas;
• Quão preparados estão os trabalhadores e as empresas face ao desafio da automação? Para responder a esta pergunta, elaboramos uma caracterização dos trabalhadores e dos setores de atividade em Portugal. Nesta análise verificamos que cerca de 56% dos trabalhadores desempenha ocupações rotineiras de baixa qualificação, enquanto cerca de 23% desempenha funções não-rotineiras de baixa qualificação. Apenas 13% desempenha funções não rotineiras de elevada qualificação. As ocupações de baixa qualificação são mais significativas, em percentagem do emprego regional.• Através de inquéritos realizados às empresas que participaram nas apresentações regionais dos resultados preliminares deste estudo concluímos que que aquelas que pertencem ao setor da manufatura são as que fazem maiores investimentos em automação em relação à receita da empresa (9% - 45%), uma prática que esperam que se generalize no futuro. As empresas inquiridas apontaram também que a maior barreira para adoção de novas tecnologias é a necessidade de adaptação dos recursos humanos, dada a falta de quadros especializados no mercado. No entanto, apesar da crescente automação dos processos produtivos, o número total de trabalhadores das empresas inquiridas tem vindo a aumentar devido ao aumento da procura. Contudo, o investimento em requalificação é ainda reduzido, sobretudo em formação inicial e “on-the-job”.• Através de uma análise de custo-benefício da requalificação do ponto de vista do trabalhador, este estudo estima que o retorno à requalificação em Portugal é elevado: um retorno de 4 vezes face ao custo, para um trabalhador que se encontre empregado, e de 9 vezes para um que esteja desempregado. Adicionalmente, ao controlar para características do trabalhador e para o nível de qualificação, estimamos que o prémio salarial para um trabalhador que desempenha tarefas menos suscetíveis à automação face a um trabalhador que desempenha tarefas mais rotineiras é aproximadamente 20% antes de impostos (+ 180€ / mês, em média);
• As nossas estimativas indicam que aumentar o nível educacional do ensino secundário para o ensino superior de 10% da força de trabalho em Portugal aumentaria a produtividade da economia em 4,4%. • A qualificação e a requalificação estão também associadas a um conjunto de externalidades positivas: (i) na saúde; (ii) na criminalidade, ao reduzir a probabilidade de desemprego e ao melhorar o rendimento esperado do trabalho; (iii) nas contas públicas, uma vez que reduz as despesas do Estado com a saúde, a criminalidade e o desemprego, e aumenta as receitas devido ao aumento de produtividade dos trabalhadores e das empresas. • A obtenção de qualificações gera indivíduos mais produtivos, saudáveis, menos propensos a atividades criminosos, maior recolha de receitas fiscais e despesas com desemprego, saúde e criminalidade mais reduzidas. O relatório do Cedefop produz uma estimativa para Portugal dos custos e benefícios por trabalhador, assumindo que os custos monetários do estudo são suportados pelo Estado. • A requalificação de um trabalhador representa, em média, um valor presente de 27.800€ em impostos diretos e indiretos, assim como uma redução de despesa de 2.900€ em subsídio de desemprego e outros benefícios. Em contrapartida, o Estado gasta 14.200€ por estudante no ensino superior, em média. Isto represente um benefício de 2 para 1, sem ter em conta as restantes externalidades na saúde e na criminalidade. • Na verdade, este rácio poderá ser maior ainda se, ao invés de usar o custo médio por aluno tivermos em conta o custo marginal, que deverá ser próximo de zero. Estes números são evidência de que existem incentivos monetários significativos à requalificação da força de trabalho não só por parte dos trabalhadores, mas também por parte de todos os envolvidos – trabalhadores, governo e empresas.• É de salientar que já existem incentivos e programas de requalificação de recursos humanos por parte do Estado (e.g., o programa Qualifica). No entanto, estes centram-se tipicamente em intervenções junto de trabalhadores numa situação de desemprego e são feitos sem uma colaboração concreta do tecido empresarial. Existe uma necessidade de maior coordenação entre instituições de ensino, trabalhadores e indústria de forma a aumentar a adopção de tecnologia, minimizar os efeitos disruptivos da automação nas relações laborais e aumentar a produtividade. Para recolher os benefícios destas alterações, é imperativo investir na requalificação da força de trabalho.• Este estudo conclui que a crescente automação quando acompanhada pela requalificação da força de trabalho constitui uma excelente oportunidade para que os trabalhadores portugueses mudem de tarefas de baixo para alto valor acrescentado, o que permitirá um aumento da produtividade dos trabalhadores e das empresas.
Period14 Oct 2019
Work forCIP - Confederação Empresarial de Portugal, Portugal
Degree of RecognitionInternational