Foto Impulse: os arquivos fotográficos e fílmicos das missões coloniais de Geografia e Antropologia. Apresentação do projeto

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Description

Esta comunicação visa apresentar o projeto de investigação "O impulso fotográfico: medindo as colónias e os corpos colonizados. O arquivo fotográfico e fílmico das missões portuguesas de geografia e antropologia" (PTDC/COM-OUT/29608/2017), que se iniciou em Outubro de 2018. Assim, começaremos por apresentar o objeto, com alguns exemplos do corpórea reunido, as questões de investigação e as metodologias a desenvolver. Em seguida discutiremos o carácter interdisciplinar da pesquisa e a sua relação com as ciências da comunicação e os estudos dos media visuais, numa perspetiva que reune a teoria dos media, a história e o estudo de arquivos, o estudo das culturas visuais e os estudos pós-coloniais. Visamos, assim, contribuir não só para incluir um conjunto de imagens fotográficas e fílmicas no âmbito da história destes media, geralmente virada para a sua história artística, bem como demonstrar o uso institucional e político que motivou estas produções visuais, como forma de conhecimento e, simultaneamente, de dominação. De facto, as missões geográficas lançadas pela Comissão de Cartografia a partir da sua formação, em 1883, serviram indubitavelmente para melhor conhecer os territórios ultramarinos, mas provavam, do mesmo modo, não só a presença portuguesa, colocada em causa pela Conferência de Berlim de 1885, como simbolicamente e, de forma, talvez, mais duradoura, criavam um imaginário de posse, que podemos associar ao gesto de fotografar e de filmar. Esta prova fotográfica era devedora do carácter indicial do próprio médium, tornando-o peça essencial como meio de prova. Fundamentada na abordagem de Michel Foucault, mas também nas "histórias espaciais" de Michel de Certeau, e no conceito heideggeriano de "habitar" este projeto faz a relação entre estes conceitos e as práticas da imagem em contexto colonial e institucional. Seguimos a metáfora do mapa: a fotografia como mapa e os mapas como fotografias, procurando também perceber como estas definições são, elas próprias, devedoras de uma concepção representacional do espaço (Henri Lefebvre). Ora, o aparentemente gesto de fotografar e de filmar, é mais do que uma forma de representação do espaço - muito utilizada nas missões de geografia e cartografia -, é também prática espacial (espaço vivido) e a construção concomitante de um espaço simbólico (espaço da representação, segundo o mesmo Henri Lefebvre). Já as missões de antropologia, cujas primeiras imagens estavam integradas nas imagens de geografia, autonomizaram-se a partir de 1936, data das primeiras missões especificamente de antropologia. Este arquivo, disperso em várias instituições portuguesas, permite traçar as complexas relações entre a antropologia e os media visuais. O nosso arquivo aponta para a possibilidade de encontrar aí a história da passagem de uma fase dominada pela antropologia física, destinada a constituir os "tipos de raças", para uma antropologia cultural, crítica dessa tendência. Para já, numa primeira análise ainda impressionista, percebemos a permanência tardia da antropologia física nas práticas visuais destas missões, quando, em muitos países europeus já se criticava esta tendência, iniciada no século XIX. O contexto de ditadura fascista e, alguns anos mais tarde, o contexto da Segunda Guerra Mundial, que veio, com o regime nazi, recrudescer as teorias racistas poderão justificar esta visão. Isto significa que fotografar ou filmar não são gestos simples, mesmo quando, em certos dispositivos técnicos, baste apenas "carregar num botão". Além do botão, carregamos sempre todo o contexto social e relacional de poder, bem como as ideologias que enformam o olhar de quem acciona o dito botão. Finalmente, referir-nos-emos ao trabalho de Isabel Ferin que relaciona a emergência do conceito moderno de comunicação associado ao contexto histórico da expansão marítima - em que o nosso trabalho também se situa - no seu livro, já clássico, "Comunicação e Culturas do Quotidiano" (Lisboa: Quimera Edições)
Period25 Jan 2019
Event titleVI Congresso Internacional em Comunicação, Jornalismo e Espaço Público: Poder, representação e epistemologias
Event typeConference
LocationCoimbra, Portugal