A potência da memória involuntária em "Dão-lalalão", de João Guimarães Rosa

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Description

Na novela “Dão-lalalão”, uma das sete narrativas de Corpo de baile, do escritor brasileiro João Guimarães Rosa, um ex-boiadeiro, Soropita, apaixona-se por uma prostituta, Doralda, com quem se casa. Corroído pelo ciúme, pois sempre imagina que sua esposa poderá ser reconhecida por algum ex-cliente, é atormentado por uma memória sombria. A estória tem início durante o regresso de Soropita do Andrequicé, onde fora ouvir uma novela de rádio a ser compartilhada com os moradores do Ão, vila onde mora. No percurso, ele recorda-se da esposa. Portanto, é por meio dessas lembranças que saberemos a maneira como se deu o primeiro encontro amoroso do casal, em uma casa de prostituição na cidade de Montes Claros. A meio-caminho, Soropita reencontra um amigo, Dalberto, a quem não vê há alguns anos. Tal encontro alimenta ainda mais os ciúmes de Soropita que, ao se ver obrigado a convidá-lo para jantar em sua casa, posto que estão nas proximidades, começa a imaginar o amigo como um possível ex-cliente da esposa.
Em “Dão-lalalão”, toda a narrativa é construída em um movimento de ida e volta da memória, parecendo que Soropita realiza duas viagens, uma de regresso à casa e outra por meio das reflexões, que paulatinamente vão sendo tecidas a partir das lembranças, há também as recordações que ele compartilha com o amigo Dalberto e com a própria esposa. Logo, as diferentes visões vão se sobrepondo à medida que os elementos externos, que estariam a cargo de um narrador supostamente imparcial, são penetrados por memórias evocadas pelas três personagens.
Há nesta novela muito do que Gérard Genette observa ao analisar a Recherche proustiana, na obra Figuras: [...] “a analogia constante entre uma sensação presente e uma sensação passada em que a abstração operada consiste na abolição das distâncias temporais necessárias à eclosão de um minuto livre da ordem do tempo” (1972, p. 47). É nesta narrativa do ciclo Corpo de baile que mais se pode verificar a ação da memória involuntária, não só porque é a partir do cheiro de um sabonete que Soropita transporta consigo na bagagem, presente para a esposa, que Doralda é pela primeira vez evocada, como as lembranças deslizam de uma personagem a outra, durante o jantar oferecido por Soropita ao amigo Dalberto, ajudando o leitor a conhecer o passado de cada uma das personagens: seus desejos, projetos e segredos. Nesta comunicação, abordar-se-á a importância da memória na construção “Dão-lalalão”, em diálogo com o pensamento de Gérard Genette, Paul Ricoeur e Jean-François Lyotard.
Period28 Jul 2021
Event titleXIII Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas
Event typeConference
Conference number13
LocationRoma, Italy

Keywords

  • Guimarães Rosa
  • Memória
  • Corpo de baile
  • Literatura Brasileia